Uma Breve vida parte 10

Existe perdida,
Num canto qualquer da cidade,
Uma rua sem sol,
E sem felicidade,
Triste, de terra batida,
De gente mais triste e batida,
Pelos socos da vida,
Tão cruel de ganhar.

Na rua sem sol, ninguém ri,
Nem faz batucada,
E até a garotada,
Já esqueceu de brincar,
Quem passar vai pensar,
Que a vida parou,
E na rua sem sol,
Só fantasmas, a vida deixou.

Mas no alto da rua sem sol,
Há uma luz sempre acesa,
Luz que é sol na tristeza,
Dessas vidas sem sol.

É a esperança no sol,
Que amanhã há de vir !
Nesse dia de sol,
Essa rua sem sol,
Vai cantar... vai sorrir...!

 Rua Sem Sol (Mário Lago)

  Olhando o teto da minha casa tenho alucinações. Visões estranhas de uma rua por onde andei e das pessoas que encontrei. Essas caras ainda existem na lembrança de um tempo distante. Por meses seguidos, um tanto que já perdi a conta, desenvolvi um conhecimento de coisas que aconteceram com essa gente. Abismado, concluí muitas cenas. Com isso continuei lendo, revendo, remoendo as dúvidas e os impedimentos. Sei bem que, nessas alucinações, houve quem reclamasse de humilhação ou que me acusasse de fazer intrigas. Alguns até julgaram que eu sofresse de algo parecido com delirium tremens. No entanto, independente de qualquer julgamento dessas visões estranhas, eu tornaria público todos aqueles fracassos que por anos a fio foram varridos para debaixo do tapete, isso sem medo de qualquer censura ou retaliação. Eu sabia que era uma carga de responsabilidade muito grande para um homem sozinho carregar, eu não tive medo, nunca tive qualquer receio de ser apanhado numa situação constrangedora ou de correr perigo. Eu tinha certeza que não poderia ser real, que era tudo fruto da mente trabalhando sem parar. Os meus delírios diziam que todas as revelações seriam fatais demais, fortes demais, verdadeiras demais diante dos fatos relatados e, na grande maioria, incontestáveis diante da verdade conhecida por todos. Mas no fundo, bem lá no fundo mesmo, eu só buscava um remédio que trouxesse um alento para minha dor. eu sabia que diante de cada cena revelada haveria uma confissão, e dessa constatação uma mudança radical de comportamento, alguma coisa que pudesse finalmente trazer o alívio de não precisar mais carregar esse peso que não era meu. Mas, uma coisa é saber que certos atos são errados e outra é ser o sujeito que comete os erros e acha que o que faz é certo; é essa toda revolta que causa esses pensamentos amalucados. Quem prega regras de conduta aos outros deve em primeiro lugar dar o bom exemplo. E nunca agir do modo oposto àquilo que prega aos seus próximos. Pareço ingênuo colocando-me nessa situação de relator de mazelas e descrenças, mas é uma missão determinada pelo destino, pois eu não posso ficar sozinho com tudo dentro da cabeça, por isso, até hoje, ainda penso sem parar em outras coisas que consigo lembrar. Confesso que agora acho tudo muito estranho e sinistro. Não entendo ao certo o propósito de tudo que passou, nem mesmo dessa missão, digo, nos detalhes revelados por seres que nunca imaginei que pudessem existir em outra dimensão. A única coisa que sei é que esse momento é de ultrapassar barreiras, penetrar no círculo daqueles que vivem em tensão constante e se escondem de tal modo que parecem baratas tontas zigue-zagueando pela sala. O sol dessas pessoas brilha opaco com um grosso filete de nuvem na frente, isso mantêm sempre o ar abatido de um cotidiano triste e infeliz. Cada raio insistente que tenta chegar na rua sem sol, recuará diante do melancólico desânimo nos rostos daqueles que um dia revelaram segredos que jamais poderiam ser revelados. Não é preciso que um tente colocar todos contra alguém que deixou escapar segredos, isso na tentativa que ele seja apedrejado ou escorraçado, os fatos falam por si só. As atitudes perante as situações da vida revelaram o que ninguém esperava, ou que pelo contrário, todos já se armavam com defesas para o que poderia acontecer mais cedo ou mais tarde. Aquele que conduziu a palavra ao campo minado nada mais foi que o mensageiro de toda verdade que ninguém nunca quis aceitar. Nessas alucinações que tomam todo instante, vejo a fada e suas guardiãs perversas me observando, tramam uma conspiração contra mim. Mas, se na verdade estão me observando, vão se cansar, porque sou muito duro na queda. Posso passar meses, anos ou décadas vivendo assim, porém, estudando um pouco mais cada passo a ser dado ou o movimento de uma por uma dessas peças. Faço isso nos mínimos detalhes, só para não dar o gostinho de me vencerem com ameaças e coações mentais. Eu continuo exposto, aberto, elas não. Ficam lá, escondidas como cadelas medrosas que buscam no colo da mãe um abrigo. Estão lá, atrás daquelas enormes portas invioláveis, no mesmo lugar de onde enxotam pessoas inocentes aos pontapés e acolhem os sem escrúpulos como aliados, ou fingem aos parentes, ou quem sabe, aos homens influentes que conquistam com dinheiro, que são gente hospitaleira e digna. Que podridão! Que comportamento mais execrável! É indecente fazer coisas assim. Receber portas ou telefonemas batidos na cara come a alma da gente, deixa no receptor dessa cena um vazio imensurável de impotência. Diante de tanta ignorância o sujeito fica tão atônito que nem percebe que uma lágrima caprichosa desceu pelo canto do olho. Com o passar do tempo toda essa situação vai criando um caráter surrealista, deixando uma impressão totalmente desfavorável do ponto de vista respeitoso. Inflama o espírito pior que um útero doente e purulento que nunca pára de escorrer pus, faz aumentar pouco a pouco a sensação de revolta e paralisia. E tudo chega ao limite do esgotamento quando não há mais solução à vista. Quem, dotado de um certo bom senso e educação mediana, poderia ter qualquer respeito por um Ser que faz essas coisas? Uma pessoa que, quando foi gente como a gente, não respeitava princípios alheios, ideias, ideais, códigos de conduta, leis do bom relacionamento. Tudo o que foi feito por ela poderia ter sido baseado num livro de horror obsceno, ou de uma personagem da vida mundana que nunca teve o menor sentimento por algum semelhante. Coisas de uma segurança absoluta que se partiria em pedaços, quando notasse que os seus traços sexuais muito apelativos começassem a rarear ou cessassem por completo. Então um grande e escancarado abismo se abriria enquanto as entranhas iriam se queimando e as pernas totalmente separadas propiciariam o recebimento de vergalhões intensos, e o corpo todo se contorcendo em suor e angustia por um objetivo de prazer que nunca foi alcançado. No espelho o reflexo de um semblante de uma criatura permanentemente desiludida perante suas escolhas, flutuando na imaginação dos sonhos sem luz por causa de toda essa cena triste. É unicamente por isso que embaixo de mim ainda existe um mundo que desmorona, é um mundo que continua vacilante, um mundo desgastado pela ruína. Só uma figura como eu teria a coragem de penetrar minuciosamente em sua observação tão detalhada e, com a mais louca introspecção, retirar todos os tons de miséria, jogando tudo na cara daquele Ser que ofendeu sem sentir remorso. Tudo acontecendo como se fosse uma luz cegante e causticante que não deixa nada às escuras. Quando um homem se sente assim, o mundo todo cai sobre ele como se fosse uma coisa qualquer ou um insignificante vivente. Tudo o que lhe resta são as sobras apodrecidas que ainda o sustentam por um tempo sem fim, uma atmosfera saturada demais para que um sentimento bom possa florescer. Então ele se vê frente a frente consigo mesmo e com todas a mentiras que partilhou. E as últimas coisas que lhe restam são palavras. Palavras que viram o mundo de cabeça para baixo, a fim de criar uma nova estrutura boa de convivência. O amor que anteriormente carregava se transforma em um veneno mortal e cruel. E se de vez em quando encontra palavras que explodem, palavras que queimam e ferem, que arrancam sussurros e lamentos, lágrimas e pragas rogadas, é por que elas provêm de um homem colocado nas cordas e amordaçado. Um Ser que tem como única e definitiva defesa suas palavras. As palavras que atira são igualmente determinantes quanto tudo aquilo que sofreu. Elas medem o peso justo de todas mentiras que esmagaram uma breve vida. Essas palavras são mais fortes que todos os tormentos e artimanhas que uma fada-monstro covarde, seguida de suas mandadas, elaborou para esmagar a personalidade daquele que dá vazão à indignação de forma sincera. Diante disso, quem poderá dizer que nessa rua sem sol, onde ela está agora, um dia haverá cantos e sorrisos?
- Olá Senhor! Continua pensando no que não consegue lembrar direito? – Diz Shine –
- De onde você surgiu? Os seus olhos estão apagados, nem reparei que estava aqui. Quero que se afaste de mim. Vá embora! Todos para longe, incluindo você, Dig e seus amigos roedores. Não aguento mais isso! Eu vivia bem melhor antes de aparecerem na minha vida. Por quê me persegue tanto em meu momento de descanso? Quero ficar sossegado. Eu tinha amigos lá em cima, aqui estou sozinho e não sinto falta deles. Não preciso que fique me atormentando ou me mostrando coisas que não quero ver, pare com essas situações chatas que não entendo e nem quero entender. Não desejo missão alguma. Desapareça, xô... Vá embora! Vá logo!
- Senhor. Estava observando o seu pensar. Com isso tive uma ideia que vai esclarecer muitas coisas, inclusive como tem que continuar firme nessa missão. Irá descobrir hoje o motivo que levou a fada a virar monstro. Também saberá mais um pouco da sua missão. Novos fatos sobre os “protegidos” serão expostos.
- Eu quero sossego. Nem depois de morto tenho paz. Caramba! Por quê preciso dar atenção a você?
- É o seu destino, Senhor! Eu e meus amigos pequeninos montamos uma tela de cinema naquele mausoléu por onde passeou numa noite dessas. Venha comigo. O filme de todas essas vidas já vai começar. É um filme antigo que fala do passado. Nenhuma feição que será vista nessa película mantêm a mesma aparência hoje. O senhor precisará usar sua imaginação para desenhar esses rostos no presente.
     Saímos flutuando pela noite sem luar, tudo está mais escuro que o normal. A grande porta de ferro do mausoléu está aberta. Nos cantos permanecem os mesmos restos de velas e os esqueletos erguidos de pé continuam no mesmo lugar de antes, vestem roupas em farrapos mais degradadas, quase nada mudou. Na parede do fundo um telão branco, parece um tanto embolorado, bem esticadinho. De cada lado caixas de som forradas com enormes teias de aranha, cada caixa tem um alto falante preso por apenas um parafuso na parte superior. O projetor do lado oposto do ambiente faz um tipo de barulho semelhante a um enorme relógio de parede velho dando os seus últimos ticks tacks. A turma de Shine é grande, de quinze a vinte espectadores sentados em pequenos pedaços de madeira que viraram bancos coletivos. Todos lado a lado e de olho na telinha esperando o filme começar. Enquanto isso, alguns dos presentes chiam um pouco, outros mais impacientes chegam a guinchar alto. Alguns usam fraques e comparecem acompanhados de fêmeas trajando vestidos longos em tons escuros, os poucos que estão sozinhos lambem as pontas dos dedos melados por restos de chocolate achado no lixo. O projetor é operado por um ratinho que usa boné e ostenta uma linda gravata borboleta vermelha. Dos seus olhos surgem focos de luzes que iluminam a tela. Eu e meu amigo Shine nos acomodamos nos fundos, perto da saída. Pela grande porta de ferro se arrasta Dig, vem chegando devagar. Ele tosse, cof, cof, cof, chega devagar e de uma forma bem desconfiada. Passa o focinho nos cantos, pisa passo a passo até praticamente encostar-se do meu lado direito. Nem me olha, faz como se eu não estivesse presente. Suas pequenas asas permanecem retraídas como barbatanas de um peixe do mar. As luzes coloridas que carrega nos olhos diminuem de intensidade até quase se apagarem. Ele se aquieta e mantêm a cabeça erguida olhando para frente sem mexer um único músculo.
      O filme começa, todos os presentes silenciam e se ajeitam nos assentos. Uma paisagem deserta aparece na tela. São montes de areia branca de doer a vista. Em seguida o foco da câmera vai mudando para o lado. O próximo quadro é de uma estrada vazia com faixas amarelas intermitentes pintadas no chão. É uma estrada reta que acaba no horizonte. Essas faixas amarelas vão passando tão rápido quanto um vôo rasante por cima da pista. Olho de lado inquieto; coço o queixo e penso: Preciso de um pouco de alegria, algo que me faça gargalhar até ficar com câimbras. Esse filme está muito chato. Não consigo descontrair. No quadro seguinte o ambiente é de um lugar pequeno parecido com uma casa com teto em formato de piramide, está bem organizada e limpa, com tudo no lugar. Um casal se beija com grande entusiasmo, são iluminados por um clarão vermelho e azul que vem de cima. É uma aura de desejo que transborda por cada poro. A imagem é distorcida e um tanto trêmula. Ao olhar mais atentamente vejo o rosto da fada, um rosto amarrado e contrariado. Ainda assim joga seus braços sobre o pescoço do homem. Sou eu! Ela beija, aperta, abraça e pratica os seus encantos. O close aproxima-se ao máximo do aperto dos corpos colados. O rosto da fada continua pesado, triste e aborrecido. Os meus beijos não despertam a euforia desejada. Logo ela se afasta, acena com a mão em sinal de adeus. O quadro seguinte é da fada de novo, agora mais jovem, sorridente e envolvente. Atira-se aos braços de um homem. Beija-o com intensidade e emoção. Suspira ao final de cada beijo, em seguida cola com vontade os lábios nos dele. Ela se larga nos braços desse homem como se confiasse que nunca chegaria ao chão. Ela olha no fundo dos olhos dele com admiração e paixão. Sente o coração disparar e as pernas tremerem. Ele retribui cada detalhe, todos os olhares, toques e sussurros. Nesse instante Shine me cutuca: Senhor, Senhor! Esse é o protegido da fada, lembra dele? Olhe bem! Veja quanta sinceridade aparente o jovem transmite em suas sensações. Vou narrar a história para que entenda melhor. Ele a ama, mas tem um grande impulso por liberdade e exibicionismo. Ela quer domina-lo, mas não consegue. Veja agora como ela se aconchega em seus braços. Ele aceita e depois a empurra de lado. Ela ameaça chorar. Ele volta e acaricia os seus cabelos, diz que ela é linda e vai embora. Veja o quadro seguinte. Ele dirige um carro, usa gel nos cabelos e tem roupas de grife. É quase um playboy. Veja como ele dirige devagar nas ruas daquela grande praça que tem um lago no meio. Desfila em seu estilo marcante. Dá uma paradinha nos bares onde tem meninas disponíveis para um passeio. Enquanto isso ela está em casa contando os dias para realizar seu grande sonho, olha com carinho os presentes que recebeu dele no último aniversário. Quando ela vai ao trabalho tem orgulho em contar para todos os seus planos de futuro, enquanto isso ele segue desfilando. Ela se entrega ao trabalho dia e noite para o sonho ser realizado. Ele se aprofunda nos encantos da vida fugaz. -- Senhor, está prestando atenção? Reparei que está quase dormindo... Veja agora. Essa cena é fatal: Ele está com uma jovem linda e sorridente no carro sedan, ele a beija e abraça, não é a fada. Notou a diferença? Agora ele e essa jovem seguem para um lugar aconchegante e feliz. O tempo passou... A fada descobriu. Ele partiu. O protegido e a jovem sorridente passeiam por lugares bonitos. Ele olha compenetrado o horizonte. Ao seu lado uma criança pequena. O lugar em que estão é bucólico e acolhedor, cercado por uma grande represa de águas calmas. Diante da cerca de madeira ele pensa no que fez. Nesse instante a fada chora. A fada vira monstro. Ela agora bate o cajado nas cruzes e elabora poções para feitiços. O protegido tem a segurança do código de honra que não pode ser quebrado. Com certeza estará protegido enquanto o pequeno Ser que carrega ao seu lado tiver um carinho singelo por ele. ---Nesse momento o silencio do ambiente é rompido com uma estrondosa vaia.----- São chiados estridentes de desaprovação da platéia. Um burburinho se instala. A cena seguinte é de um trem chegando na estação. A platéia silencia. De uma das portas do último vagão desce um homem desengonçado com uma aparência física bem alternativa. Ele é diferente no visual, caminha estranhamente e olha ao redor com ligeira desconfiança. Está suando como se estivesse sob o sol do deserto. Carrega uma grande mala. Diante dele surge Úrsula, ela o recepciona como se atendesse a um rei da Roma antiga. Ela diz que o ama, ele diz que a ama também. Eles seguem abraçados por dentro da estação até alcançarem o carro que os espera do lado de fora. Ela fica abobada diante do seu protegido. -- Senhor, está prestando atenção? Veja que ele tem hábitos comuns e segue regras rígidas de horários, conduta e presença. Tudo determinado por ela. Ela o domina e protege, ele é o seu escravo emocional especial. Ela se alimenta da energia vital pura que ele carrega, mas sabe dosar para não extenuá-lo, em troca lhe dá conforto e prazeres. Veja que o sorriso dele, assim como o da fada, não parece tão espontâneo. No fundo ele sabe que está num círculo vicioso difícil de sair. A sua melhor escolha é continuar, pois teme que toda a maldade que Úrsula demonstra ao ser contrariada, poderá um dia se virar contra ele, isso no caso de resolver partir. Veja agora o beijo. Ao se beijarem ela suga energias vitais dele, isso aos poucos. Mas não importa, ele tem grandes reservas. No instante do beijo mais prolongado a platéia novamente chia alto...
Agora, veja bem, senhor. Para alcançar Úrsula, atingindo o seu principal ponto fraco, precisará estudar bem os hábitos dele. No entanto não poderá tocá-lo, pois ele tem uma missão que precisa cumprir no mundo terrestre. Ele tem sob seus cuidados uma pessoa idosa. Essa pessoa depende 100% dele. É quase um obstáculo em seus sonhos de boa vida, porém, não há nada que ele possa fazer, exceto, cumprir o que está escrito. Ele servirá como um trampolim para o senhor, mas nunca poderá ser atingido ou ferido. Entendeu? O senhor sabe que sua missão principal é eliminar a fada da existência de maldades. Se Úrsula se colocou à frente dela como uma barreira a ser transposta, então, o senhor terá que arrumar meios de retirá-la do caminho. Não importa qual o destino que dará a essa bruxa dos mares, o importante é ter acesso livre até a fada-monstro, e assim, é claro, concluir sua missão. Lembre-se que existe um elo secreto que une a fada ao senhor. Esse é um segredo que só poderá ser revelado ou usado como arma de luta em último caso. Essa é a única regra que peço que o senhor siga, apesar de que estou ciente que não consegue lembrar exatamente do que se trata. É bem melhor que seja assim.
Nesse momento fico pensando e me perguntando: “Qual será esse segredo que ele tanto fala?” Pensei que já soubesse tudo, que lembrasse de todas as cenas e conversas. Bem... Se ele diz que existe um segredo, então vou esperar que venha naturalmente ou que ele finalmente me conte. O filme entra na cena final. Úrsula e seu protegido estão em um barco, o transporte preferido dos dois, em seguida tomam toda a tela, dão tchauzinho para o público como se por acaso fossem celebridades. Todos os presentes se levantam, vaiam ardorosamente, jogam todo o tipo de lixo e restos de comida na tela. A projeção acaba. A platéia se encaminha educadamente para fora. Os ratinhos passam por mim enquanto continuo sentado. Cada um ao passar foca um brilho de cor diferente dentro dos meus olhos, em seguida um afago carinhoso no ombro. A fila obediente segue o ritual até o final. Por último restam Shine e Dig. Subimos juntos até o alto do mausoléu. A grande porta de ferro se fecha sozinha. Dig estica as asas e Shine sobe em sua carapaça. Eles alçam vôo pela noite escura. Eu fico segurando na cruz suspensa do mausoléu abandonado, estou quase totalmente encoberto pelo manto da madrugada. Reflito sobre tudo o que vi na tela. Nesse instante ouço uma pancada seca de algum objeto de madeira acossando o metal. Vejo três vultos andando pelo meio das quadras. É o momento de seguir para o recanto de repouso, a luz do dia logo iluminará as sombras. A única razão que resta para que essa vida persista assim, é que a missão continue e seja cumprida. Fecho os olhos e não ouço mais nada. Agora estou em outro mundo.       

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