terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Uma Breve Vida PARTE 5

      Fada, minha querida fada, venha celebrar junto de mim o seu lindo ritual.
       Deixe-me ver tudo aquilo de bom que um dia esteve guardado na sua vida real.
       Imaginar todo o seu lindo corpo não me dá nenhum trabalho,
      Lembrar das feridas que nunca fecharam é que me deixa em frangalho.
      Há um segredo que carrega que gostaria muito de saber:
      Que imagem de mim dentro da sua mente há de prevalecer?

     A face da guardiã, aquela com carinha de gata sorridente, não sai da minha mente. Ela é uma graça! Inclusive quando não sabe direito para onde vai ou de onde veio, o seu único desabono é ser aliada da fada, isso faz com que perca todo o encanto sincero que poderia ter por ela. Ouço gritos penetrantes que não saem da memória. O pior é que minha realidade em nada me consola, afinal de contas nenhuma lei da física explicaria, por razões lógicas, esse período de sofrimento, ou essa minha existência esquisita em um plano diferente. Imagino que seja porque existem variadas versões do inferno para se viver e de certa forma estou em uma delas. Os gritos que ouço chegam até mim cobertos de feridas e às vezes eles duram tanto que me sinto como se estivesse me afogando em sangue. Isso parece uma ideia louca para um ser vagante como eu, mas é bem real e verdadeira, tanto que, tenho a sensação nítida nas imagens que trago comigo da outra vida. Sinto esses espíritos, esses mesmos que nunca dizem nada claramente e são entidades transparentes que brilham ao meu redor, e nunca orientam que caminho devo tomar. Percebo que estão me acompanhando silenciosamente durante toda essa existência etérea, para uma única missão: encontrar e extinguir, de todas as dimensões conhecidas, a fada monstro; percebo tudo por intuição. No entanto, os meus poderes ainda não são totalmente dominados pela mente. Em grande parte do tempo sinto como se estivesse andando numa montanha russa pela primeira vez. Os maiores incentivos são das vozes esganiçadas que nunca param de assombrar a memória. Entre tantas palavras ouço sempre uma frase completa que diz assim: “Você é um obstinado e nunca deve parar, descubra o que de mais puro há dentro de si e finalmente encontrará a solução que tanto busca!”. O que na verdade isso quer dizer? Quais são os poderes secretos que possuo e ainda não descobri? Tudo se desmancha diante dos meus olhos quando tenho vários flashes entrecortados do passado, é o momento de lembrar que um dia as intenções foram as melhores possíveis no convívio humano, e agora sou apenas uma ferramenta moldada com a consciência do ódio. Pensando nessa causa reconheço que no passado nunca fui chamado de violento ou agressivo, porém, diante do recebimento de tanta falta de respeito nessa vida remanescente, até mesmo um monge do Tibet perderia as estribeiras. Foi assim que comecei essa missão de peregrinação em busca da fada monstro, tudo inconscientemente, é claro. Justamente por desconhecer, no começo, o verdadeiro sentido da missão que havia recebido, só agora que percebo bem mais claramente a intenção desse destino. Uma coisa é certa: Eu consigo me esgueirar pelas sombras sem ser pressentido por ela. É nessas horas que pergunto ao juiz imaginário que tenho dentro da cabeça: por quê perambulo a noite toda em busca de uma única coisa, se tenho todo o universo infinito para desvendar? E por que não lembro de quase nada do que fiz na vida recente em que encontrei a fada monstro no plano terrestre? Por essa falta de imagens claras é que fico sem saber se fui um criminoso, um seqüestrador, um estuprador ou um rico publicitário. Não sei se agi como um tipo de patife cheio de mesquinharias, egoísmos e interesses espúrios; ou se como um benfeitor humanitário, tive um nobre trabalho de pesquisa em busca de curas para os males eternos da mente dos homens. Nem tenho certeza se encontrei mesmo a fada monstro em alguma vida. Não me conformo em não obter qualquer resposta para as perguntas que me faço em tantos dias e noites. Não ter resposta me deixa totalmente irado e sem noção da minha real passagem por aqui. A imaginação ainda me causa uma sensação paranóica de ilusão romântica com a fada monstro, faz com que um lindo sorriso se deslize pelo rosto com a imagem dos primeiros dias, dias calmos que imagino ter tido ao seu lado, dias de ilusão tanto quanto essa sensação. Mas é tão momentânea essa passagem, que pouco percebo a diferença que faz esse sorriso na relação de amor e ódio dessas fases distintas que nós, hipoteticamente, poderíamos ter vivido. Esse clima de amor e ódio foi aos poucos tornando outras coisas supérfluas dentro de mim, principalmente diante de uma causa maior nesses períodos diferentes da vida pós-vida. Só agora acabei notando que sempre pode acontecer de uma história real ter um final triste, ainda que esse final seja contado apenas por Deus. Uma coisa parece certa: de vez em quando é necessário dar uma de maluco, aparentar estar completamente doido diante de uma catástrofe ou ofensa. Tudo porque tem seres que parecem odiar o seu semelhante, esses que disfarçam ao máximo suas intenções ruins e não tem qualquer tipo de humildade. São esses que nunca se desculpam e encaram como um caráter de evolução o mau tratamento que dispensam aos seus iguais. Com isso acabam criando uma realidade ruim para todos que os cercam. Talvez pela falta de um tipo de sinceridade, puramente amorosa, é que eu ainda ache que o mundo é um lugar horrível e os seres humanos maus. Estou certo que seja esse o verdadeiro motivo que me leva a essa missão. As experiências cruéis e transformadoras de alguma vida passada me jogaram aqui em busca da fada, essas situações foram o que me fizeram mudar a natureza da visão ingênua das coisas, para uma visão com maior acuidade e senso de análise apurado nos movimentos, que poderiam, ou não, ser revolucionários numa ou em várias vidas.
       No leito de descanso ainda germinam as sementes de uma natureza morta, elas permaneceram conservadas dentro de mim com o passar dos anos. Essas sementes explodiram e ampliaram-se tão rapidamente que nem sei dizer se são da minha vida latente ou apenas bactérias expandindo-se em seu curso natural. Porém, sinto que num futuro próximo todas essas sementes continuarão mantendo bem claramente esse objetivo a que vieram ao mundo: o de comerem e serem comidas! É o ciclo que nunca para. Isso me faz pensar que todos têm um caminho para percorrer e com uma missão determinada a cumprir, seja por quererem isso ou não. Independente da vontade de cada um, o caminho já veio traçado, mesmo que alguns se rebelem contra tudo. Exatamente por essa coisa existir é que determinados seres não podem ser recriminados tão severamente em suas condutas, refiro-me aos leigos, pois, como eles poderiam saber, em sua ignorância eterna, que existe algo maior que ideologias de uma vida soberba? Sim, esses são aqueles que voltam com a fada de tempos em tempos e se tornam servos. São os que também tenho que buscar. Eu sei que não estou definitivamente preparado, tudo porque tenho dó desses leigos. E a dó que sinto é a arma que o inimigo poderá usar contra mim. A fada sabe como manipular bem situações a seu favor. Então essa é uma fraqueza que não permitirei que saiba.
      A terra ao meu redor está em movimento, algo diferente acontece lá fora. Tudo para incomodar os meus sonhos, que droga! Sinto que estou despencando com leito e tudo, pelo menos uns dois ou três metros para baixo. Uma insegurança insuportável toma conta do meu pensamento. A queda no buraco estreito foi desajeitada, o que me deixou um pouco fora do nível correto, isso foi o que deu uma pequena aliviada na pancada ao chegar no fundo, eu rolei e girei aqui dentro. Alongo o corpo, apuro os ouvidos. Mesmo estando numa posição desconfortável e praticamente quase inclinada, me ajeito. Não ouço nenhum barulho lá fora, sinto apenas o cheiro úmido da terra molhada. Onde estão os meus amiguinhos roedores? Esse buraco está ficando cada vez mais estreito e sufocante. Cada vez mais entupido com terra, pedras, areias e restos humanos. Mas a essa altura da existência já me acostumei com toda essa cena, inclusive com o fedor terrível que sobe nos dias de calor. Afasto um pouco a tampa que cobre a minha cabeça, preciso liberar o caminho para aprumar e subir devagar até atingir o local em que estava antes. A terra vai se revolvendo com o pensamento, nesse momento sinto um baque estranho bem na metade inferior da tampa, o caixão parou de se elevar. Ouço um ruído de unhas roçando a madeira. Levanto um pouco o olhar. Diante de mim um tatu obstruindo o caminho. Fixo o pensamento em sua forma estranha e roliça; nada dele sair do lugar. Ele me olha com aqueles olhos pequenos, os olhos dele também brilham como os olhos do meu amigo Shine, mas o brilho é diferente, são dois flashes de cores distintas, de um lado um foco azul e do outro vermelho. Conforme balança a cabeça os focos de luzes se cruzam à frente formando uma cor violeta que ilumina toda a terra ao meu redor. Ele estica um pouco o pescoço para o lado e pergunta: “Olá, o meu nome Dig. O que acha do meu pensamento, meu grande amigo?” Fico passado com a pergunta, pois nada consigo ver em seus pensamentos. Ele continua: “Não precisa disfarçar sei que existem planos sendo elaborados aí dentro da sua cachola”. Novamente fico boiando com as afirmações. Como saberia ele dos meus planos? Volto e digo: “Então, se já sabe dos meus planos me conte em detalhes, porque até agora não estou certo se o que você sabe é o mesmo que eu sei”. “Nada mal, nada mal...” – responde ele com certa frieza e prossegue: “Fui incumbido de trazer algumas informações sobre os seus pensamentos que andam um pouco confusos. Sei bem o quanto é difícil relembrar o que acha que viveu com aquela que chama de fada monstro, isso eu sei que você já sabe em partes, porém, atente bem para uma... cof, cof, cof, cof, cof, cof...” Ele tosse desesperadamente como se estivesse engasgado com uma espinha de peixe --“Precisa de ajuda, quer uns carinhos nas costas?” –Ironizo. Ele responde: “Não será cof, cof, cof, necess...necessário. Como ia dizendo: há coisas que precisa saber do seu passado, cenas que suas memórias escondem. Em uma vida terrestre você conheceu, sim, aquela que chama de fada. Vocês foram bem próximos e íntimos, no entanto, ela vinha de uma linhagem diferente da sua. Por séculos os ancestrais da fada circularam pelo mundo todo em busca de amor para alimentarem-se. A linhagem da família dela traz o mal no cerne da origem. Por isso a convivência que tiveram foi traumatizante em seus sentimentos na forma humana e você sentiu-se sugado, é verdade. Agora existe uma divida a ser resgatada: a dívida das mentiras e das maldades. Não apenas porque você foi defraudado emocionalmente por ela e usado como fantoche, mas também porque, além dela, existem outros que a cercam e a protegem agindo na mesma sintonia, tudo a mando do maior mentor do mal. Mas esse jamais poderá ser atingido. Ele foi uma cria do Senhor que nos guia e conduz. A sua missão é descobrir as fraquezas dela com seus próprios poderes atribuídos como racionais, e que estão baseados no amor divino que ela nunca poderá alcançar. Se você agir assim o universo ficará livre dela e agradecido a você. Já imaginou um universo sem dores e sofrimentos da alma? Aquela a quem chama de fada tem uma bagagem de rancor e ódio que foi transformado do amor que outros sentiram por ela, isso ampliado poderia aniquila-lo de qualquer existência. A novidade para você é que ela não sabe que tem esse poder todo. Você saberá através dos seus pensamentos que ela tem um ponto fraco. Um protegido, um escravo emocional que ela esconde a sete chaves, através dele poderá encontra-la. A fada alimenta-se de amor e bons sentimentos. Leva a sua presa para o cativeiro e a acorrenta como se fosse um ser inferior, menos esse que me referi. Todos os outros, aqueles que despertaram alguma afeição por seu disfarce de fada, caíram na armadilha e foram arrastados para o seu destino final. A única chance de libertação desses seres seria inverter os sentimentos que sentem por ela, substituindo o amor pelo ódio, a afeição pela rejeição e a admiração pelo desprezo. Acontece que essas vítimas nunca tiveram tempo hábil para essa transformação, porque a fada é muito astuta. Ela sabe quanto dura o seu alimento. Ela vai lhes sugando toda energia por um tempo, depurando suas boas emoções enquanto os pobres coitados definham acorrentados. Quando chegam no penúltimo estágio estão praticamente como zumbis. Mortos-vivos implorando um pouco de amor de qualquer Ser que se aproxime, só assim conseguem prolongar um pouco mais a vida triste que ela os submete, mas não tem mais jeito, já foram por ela dominados na mente e no corpo, o fim está próximo. Quando a última gota de sentimento bom é finalmente arrastada, esses escravos viram um punhado de ossos ocos empilhados, cobertos por uma pele completamente ressecada que se esfarela com o movimento do vento.”  Fiquei sem saber o que dizer, não me veio uma só palavra, um só pensamento...” O tatu continuou: “Vou lhe contar um pouco daqueles que andam com a fada. São monstros em forma de mulheres sedutoras. Aos seres humanos elas são extremamente perigosas e maléficas, mas a você não podem mais atingir com encantos.Elas estiveram aqui na noite passada, você já soube disso, eu sei. A fada carregava o livro de horrores e o cajado que brilha, estava rodeada da grandona, aquela a quem considera a mais fiel guardiã. Essa grandona chama-se Úrsula, a pequena ursa, que de pequena não tem nada, ela também é conhecida como bruxa dos mares. Essa criatura, em forma de entidade do mal, esteve presente em grandes eventos como conselheira de rotas navais. Ela falou ao Capitão Edward John Smith (Capitão do Titanic) que rumo deveria tomar, também orientou Capitão Anderson (Capitão do Estônia) a que velocidade deveria navegar pelas ondas de mais de 15 metros de altura. Ela foi a bordo do grande transatlântico Costa Corcordia. Brindava ao lado do Capitão Schettino, estava com uma taça do mais refinado vinho Italiano, quando tudo aconteceu. Ela é quase tão poderosa quanto a fada, também mantém escravos e tem um protegido intocável. Esse é o seu ponto fraco que deve ser explorado de acordo com a necessidade. Descubra tudo sobre ele! Agora vou falar da outra: a gordinha que atende pelo nome de Virginia. Ela é romântica e ainda celebra o dia de halloween como se vivesse há dois séculos atrás. Tem modos esquisitos, porém, não parece tão tímida quando adota um estilo que vai de Nina Hagen a Lady Gaga, bem típico, já que essas também modificam o visual a cada nova oportunidade. O seu dever de proteção para com a fada é o de mentora intelectual e orientadora de novas missões. Tem olho clínico para atividade manual. Encanta a todos pela aparência vistosa, dócil e fácil de lidar, apesar das caretas que faz quando quer ser mais notada que a fada. Todo cuidado é pouco, ela pode ser tão cruel quanto às outras. Lembre-se que são todas da mesma linhagem trazida por séculos e séculos de maldades. Meu aviso a você é que jamais baixe a guarda diante de alguma delas, mesmo que esteja de frente com um Ser que mantém uma boa feição. A grande arma de Virginia é a estratégia, assim como a arma da fada é a persersidade e a de Úrsula a agressividade. A fada exerce o domínio sobre elas porque tem algo que não desenvolveram, o poder intuito da mente voltado só para o mal. Elas estão num estado inferior, isso as faz subservientes eternas da fada. Para terminar vou lhe falar por onde esteve esse espirito que a fada carrega dentro de si, ele tem uma idade que não se pode medir, passou durante alguns séculos sendo fada e monstro de acordo com a situação. Nos últimos cem anos essa entidade que agora habita a fada, esteve muito ocupada com a atividade de sedução maligna dos seres humanos fracos. Foi ela quem incutiu na cabeça de Hitler ideias sobre uma raça superior, afinal essa entidade se julga de uma estirpe diferenciada e transmite os seus conceitos por um tipo de cognição involuntária da vítima. Ela também influenciou o Presidente Harry Truman a dar ordens para jogar duas bombas atômicas no Japão. Foi ela quem orientou Osama Bin Laden e Sadam Hussein. Ela marcou presença em eventos que envolveram gente dos meios culturais. Foi assim que conduziu a mão de Mick Jagger na feitura da música Sympathy for the Devil. Ela levou Mark David Chapman até a porta do Edifício Dakota, em Nova Iorque, para assassinar John Lennon. Marcou presença quando músicos e artistas em geral, isso em todos os tempos, morreram de overdose, suicídio ou na degradação. Então cuidado com ela, pois tudo é feito no propósito de atingir o coração de muitas e muitas almas, supostamente aquelas que não reconhecem o tamanho da influência que consegue exercer sobre o destino da humanidade. Saiba que qualquer batalha que imagina ter travado com ela nesse mundo, é mera fantasia. São flashes de cenas de outra vida que o atormentam, por isso fique calmo. Tenha consciência que precisa se libertar dessas lembranças. A grande batalha final ainda está por vir, então descanse. Logo precisará de energia para suportar a grande luta. O tempo está ao seu lado, não se apresse, domine primeiramente todos os seus poderes e fraquezas. A brisa do ar da noite que traz conforto, continuará sendo o alimento que o sustenta. Você já aprendeu que não pode sair de dia porque a luz do sol suga suas energias espectrais puras. Então aconselho-o a fortalecer-se em seus sonhos, inspirar-se com todo o amor que puder nos fluidos da natureza. Assim será conduzido ao plano que almeja. Lembre-se bem de todas palavras ditas aqui e jamais fuja da missão para a qual foi escolhido. Você é o único que pode executá-la com perfeição; justamente por conhecer tão bem o inimigo e o terreno em que ele se instala. Boa sorte e bons sonhos!” A luz violeta se apaga aos poucos, o tatu vai embora sem fazer qualquer ruído. O silêncio impera. Tudo começa a ser explicado. A missão segue e a fada monstro continua sendo o meu principal objetivo. Através dessa meta alcançarei a passagem para liberdade infinita, para o descanso simples da alma que tanto necessito.Esse novo mundo é um mundo fascinante e misterioso que me deixa hipnotizado e muito confuso.Imagino como poderei usar do espírito prático e amor divino, abrindo mão da perversidade na luta com a fada. Mas como seria isso? Já que em outra realidade aprendi que só com amor não deu certo, pois, o único resultado que obtive foi vir parar nesse lugar no qual estou agora. Preciso pensar melhor sobre tudo isso. Bem... Toda e qualquer vida, em que plano for, é feita de uma grande colcha de retalhos. Um enorme quebra-cabeças, cheio de detalhes e possibilidades, que no final adquire um único formato. Eis o símbolo do mistério da morte, do amor e da vida que preciso decifrar.
       
   A Morte o Amor a Vida
Julguei que podia quebrar a profundeza a imensidade
Com o meu desgosto nu sem contato sem eco
Estendi-me na minha prisão de portas virgens
Como um morto razoável que soube morrer
Um morto cercado apenas pelo seu nada
Estendi-me sobre as vagas absurdas
Do veneno absorvido por amor da cinza
A solidão pareceu-me mais viva que o sangue

Queria desunir a vida
Queria partilhar a morte com a morte
Entregar meu coração ao vazio e o vazio à vida
Apagar tudo que nada houvesse nem o vidro nem o orvalho
Nada nem à frente nem atrás nada inteiro
Havia eliminado o gelo das mãos postas
Havia eliminado a invernal ossatura
Do voto de viver que se anula

Tu vieste o fogo então reanimou-se
A sombra cedeu o frio de baixo iluminou-se de estrelas
E a terra cobriu-se
Da tua carne clara e eu senti-me leve
Vieste a solidão fora vencida
Eu tinha um guia na terra
Sabia conduzir-me sabia-me desmedido
Avançava ganhava espaço e tempo
Caminhava para ti dirigia-me incessantemente para a luz
A vida tinha um corpo a esperança desfraldava
O sono transbordava de sonhos e a noite
Prometia à aurora olhares confiantes
Os raios dos teus braços entreabriam o nevoeiro
A tua boca estava úmida dos primeiros orvalhos
O repouso deslumbrado substituía a fadiga
E eu adorava o amor como nos meus primeiros tempos

Os campos estão lavrados as fábricas irradiam
E o trigo faz o seu ninho numa vaga enorme
A seara e a vindima têm inúmeras testemunhas
Nada é simples nem singular
O mar espelha-se nos olhos do céu ou da noite

A floresta dá segurança às árvores
E as paredes das casas têm uma pele comum
E as estradas cruzam-se sempre
Os homens nasceram para se entenderem
Para se compreenderem para se amarem
Têm filhos que se tornarão pais dos homens
Têm filhos sem eira nem beira
Que hão-de reinventar o fogo
Que hão-de reinventar os homens
E a natureza e a sua pátria
A de todos os homens
A de todos os tempos.

POR: Paul Élvard

5 comentários:

  1. Patricia Ramos Sodero31 de janeiro de 2012 22:44

    Sem dúvida nenhuma....o desfecho da estória!O autor finalmente descobre o que aquela fada monstro representou em sua vida terrestre, demonstrada no campo espiritual,claramente.Foi um amor composto de mágoas,tragédias,rancores,desilusões....enfim...alguém que só o fez sofrer.Como não conseguiu se libertar,o autor passa a vivenciar com diversos "seres",que aos poucos vão lhe mostrando como agir,cada vez que a fada monstro mostra-se,agora com suas guardiãs,agora com identificação,onde a Ursula é do lado perverso, e a Virginia, o lado meigo,dócil.....que pode oscilar!!!Nada confiante também....
    Na verdade,o texto sugere agora que o autor analise tudo que viveu...e como seria para viver melhor no mundo em que se encontra hoje....O que poderia fazer para mudar seus pensamentos, e de uma só vez,perdoar o ocorrido???
    E no poema final.....já diz....o que gostava no passado....o que mudou enquanto vivenciou o presente....e o que espera do futuro, por enquanto,no degráu em que se encontra....para um novo recomeçar....

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  2. Parabéns por esse capítulo..Nosso amigo nos conta qual a sua verdadeira missão e ainda tem a ajuda de um mensageiro para lhe contar o que ele não conseguia lembrar..Nosso amigo tem uma missão cruel,pelo que me pareceu tem qua acabar com a fada monstro pq em vida teve uma relação com ela e caiu em suas garras,mas acho que não foi escolhido só por isso ,acho tbm que foi escolhido pq não consegue se lembrar ao certo que tipo de homem foi em sua vida carnal,se foi bom ou mal..E ainda conseguiu descobrir com a ajuda de seu novo amigo e mensageiro o ponto fraco da fada monstro,o protegido dela..agora só resta saber aonde ela o esconde..enfim mais uma vez Parabéns pelo texto me agradou mto,ainda mais que fala mto sobre a espiritualidade,até o próximo capítulo bjksss...

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  3. Capítulo esclarecedor!O encontro dos dois personagens em uma outra vida, com a mesma experiência de dor e sofrimento ,pelo amor de um e o desprezo do outro. Um ser que utiliza o disfarce da beleza e sedução, para dominar e destruir homens poderosos, que caem a seus pés e todos os seus desejos realizam.E ela não vem só, tem suas guardiãs que não medem esforços para atender a todas as suas ordens.Uma missão difícil imposta ao nosso "herói", será que posso chamá-lo assim? Foram-lhe mostradas armas para que possa vencer essa batalha,vamos ver se ele saberá usá-las.Este capítulo respondeu a muitas das perguntas,que acredito que todos nós leitores, fizemos, mas também nos trouxe várias outras,que não vejo a hora de sabermos as respostas!Mais uma vez parabéns Renato!Adorei o poema: A Morte O Amor A Vida,tudo a ver com o texto!Bj.

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  4. Fada, Úrsula e Virginia....um belo trio, na verdade todas as mulheres, em momentos e facetas de suas vidas, podem se encaixar na descrição desse trio. Embora creio que a intenção do texto e da história não seja essa, acabei viajando pelo tempo da inquisição, onde poderes do mal eram atribuídas às mulheres, bruxas queimadas na fogueira dos julgamentos masculinos e ignorância submissa feminina.
    Mas voltando a nossa história, a missão do nosso herói é grandiosa, imensa, assustadora para um único ser. Ele tem que se fortalecer para uma batalha com seres de enorme poder maléfico (o belo trio), e que tem a orientação de ninguém menos que Lúcifer....o senhor de todo o mal, que não pode ser atingido, já que é um anjo criado pelo Senhor que nos guia e conduz, ou seja Deus. Já que não se pode atingir Lúcifer ele deve destruir suas enviadas e libertar as almas que elas arrebanham e aprisionam, inclusive a dele que não pode descansar enquanto não cumprir sua missão.
    Num trecho do texto nosso herói fala de um tipo de pessoa má, sem humildade, que parece odiar seus semelhantes, que transforma o mundo num lugar horrível . Ele vincula sua missão a esse ambiente e pessoas ruins. Eu acredito que embora não tenha lembranças, ele pode ter sido uma dessas pessoas, e que hoje deve cumprir sua missão para ter a libertação de sua alma. Pensei também que ele pode ser o protegido da fada, por isso ela não o encontra, e que para cumprir sua missão terá que enfrentar a si próprio. Terá que se lembrar da sua vida, reconhecer seus erros, e os danos que causou aos seus semelhantes.
    Se meus pensamentos estiverem corretos, creio que essa é a mais difícil batalha de qualquer ser, olhar para si e perceber qual é a parte do mal que lhe cabe.

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  5. Almas unidas por outra vida. Pendências não resolvidas. Acredito que voltamos a cada vida para resolver mágoas, dores, amores, envolvimentos, amores não correspondidos ou turbulentos. Quem não passa por este momento? Alguns entendem, outros não. Cada qual com sua missão, algumas difíceis de encarar, tenho impressão que não trazemos tudo na próxima vida, mas algo trazemos. É este nosso medo, os sentidos.....a sensação de que algo foi vivido com a pessoa, a batalha se trava. É uma missão, cada um tem que cumprir a sua, nem sempre estamos preparados e acabamos contando com ajuda de próximos, pode ser até chamados de guardões...não sei. Nossa, isso tudo gira meus sentidos............parabéns mocinho, nossas vidas se encaixam em suas escritas...............

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