Uma Breve Vida PARTE 3

  Um som forte percorre os ares da noite. Um burburinho na multidão de espectros, em estado intermediário de transição, recomeça e não pára mais. São palavras de apontamento a mim; sou o recém mártir que sobreviveu da luta de extinção total com a fada. Muitos inocentes ficariam céticos, diante das primeiras investigações a respeito da manobra usada para me safar de suas garras. Pouco a pouco, apesar de todas afirmações dessa multidão soarem jocosamente, tudo foi se modificando de um jeito que me trouxe a compensação pelo esforço empenhado num duelo fatal. Mesmo que, a princípio, tais movimentos dessa multidão mais pareçam de crenças estapafúrdias do que de alívio por um salvamento. Eu sei que quase todos que me aplaudem agora, em algum momento sofreram com a sina imposta por ela em outra vida, por isso só cochicham entre si. Esses sabem bem que aqueles com quem ela sempre conviveu comungaram do seu mesmo comportamento no decorrer dos anos, e que a sua vida sempre fôra baseada em planos macabros. Mais ainda, todo aquele mal praticado por ela contra outros sempre teve a condescendência, ou até mesmo a benevolência daqueles que pertenciam ao seu mundo ou que foram agregados a ele. Quanto mais os olhares desses hipócritas tornavam-se complacentes aos seus atos cruéis, mais ela mostrava o seu verdadeiro ser que ganhava força. Uma pena que ela tenha me encontrado sob o manto da noite e brindando comigo de uma forma tão perigosa. Ela não sabia que quando mostrasse suas armas poderosas de domínio absoluto, eu relutaria por um instante. Foi mesmo uma pena, que depois de termos dançado sob a luz do luar, ela tivesse virado uma lenda ruim. Foi sob o brilho romântico daquela lua cheia que eu queria ser generoso, para que assim ela também aprendesse e fosse comigo. Mas no final a coisa se desenrolou de outro jeito, era um pensamento que vinha forte e permanecia por dias: “Não faça o bem a quem não merece, pois estará trazendo o mal para si mesmo, se não entende o que isso significa agora, um dia entenderá.” Palavras fortes na intuição do pensamento.
     Depois de algum tempo, quando passei a morar aqui com os meus companheiros inseparáveis, esse lema tornou-se quase um punhal fincado na alma das minhas dores e sofrimentos. Tudo porque a fada mostrou-se um monstro maluco e impiedoso, isso no momento em que sentiu a autoconfiança necessária para arrastar o meu ser para a escravidão. Durante um tempo ela não prestava mais atenção no que me dizia e o que dizia. Por causa disso, todos os meus interesses iam morrendo devagar à margem das suas malditas experiências do passado. Era assim que o seu poder sobre mim terminaria aos poucos. Ela falava tanto que estava cansada da agitação do dia a dia, que isso acabava me deixando também exausto e enfadado. Em outro momento dizia que estava enlouquecendo um pouco mais a cada vez que ouvia censuras ao seu modo de ser, feitas por aqueles que ditavam as regras no seu ambiente particular. Eu era o único que conhecia a sua cara nessa hora, porque era o seu único amigo e ouvinte; mesmo sendo a fada monstro que ainda não revelara ser. Eu pensava: “Oh... My God, quanto tempo isso vai durar?” Era então, quando ela resolvia entrar na escuridão silenciosa dos reclamos e pensamentos, e demorava demais para sair, que eu me sentia profundamente sem rumo. Eu ficava num labirinto de frases e palavras tentando recompor detalhe por detalhe do que havia acontecido para aborrece-la tanto. Eram coisas que me contava do inferno em que vivia e que me chocava profundamente. Eu custava a crer que conseguiria sobreviver a tantos dramas que não eram meus. A sua concordância silenciosa ao meu pesar, era interrompida pelo barulho do vento entrando pela janela semi-aberta de um cubículo quadrado montado na areia, ou quem sabe na terra, ou talvez em qualquer terreno que não inspirasse qualquer confiança de equilíbrio. E para dar um tom de mais excentricidade a toda história triste que contava, sempre usava de um tipo de encenação, demonstrando assim, através de gestos, caras e bocas, o quanto alguém tinha sido injusto com ela. Depois de ocorrido todo o relato, feito em detalhes venenosos, ela sentia um grande alivio, e eu me sentia como se fosse um mico de circo. Até hoje não acredito que todas aquelas baboseiras poderiam ser coisas tão sérias, isso ao ponto de modificarem a sua personalidade do bem para o mal. Era, sim, tudo um grande engodo, só agora eu sei. Era porque ela mantinha bem escondido o rabo comprido e os chifres pontiagudos.  Mesmo assim eu diria: “Nada mal”. Afinal a fada está ao meu lado. E ela era fada no meu pensamento naquele momento. Quanta suspeita surgiria daí por diante! Suspeitas indo e vindo em minha cabeça. Quanto mais consciente eu ficava, mais meu crânio parecia querer estourar. Foi naquele tempo que comecei imaginar a minha cabeça como se fosse o ambiente em que ela vivia, a casa dela sendo o reflexo do meu pensar sobre a sua vida. Um lugar cheio de rachaduras expostas, um piso imundo e uma varanda com grades enferrujadas. Uma sala imponente e escura, decorada com uma estante alta onde não se enxergaria o que tem em cima. Andando mais um pouco encontraria moveis encostados e cobertos com lençol. Sacos plásticos, caixas e pequenos caixotes espalhados pelo meio. Então paro e penso: Eu conheço bem essa casa. Sei peça por peça onde se encaixa, até a cor da toalha do lavado. Quantos anos o povo dela viveu aqui? Por quê hoje não tem mais nenhum som, não tem ninguém? Parece que estão todos mortos. Pregado na parede com um prego sem cabeça ainda descansa um calendário completamente sujo de poeira. Na fechadura da porta principal resta uma chave enroscada, parece retorcida pelo desgaste do tempo. O teto completamente mofado testemunha a decadência do que sobrou. Do lado esquerdo uma escadaria em L levando ao piso superior em petição de miséria. Do lado direito ao final da escada, há um quarto grande com janela para rua. O quarto de tão sombrio preserva o aspecto de porão ou de mausoléu. Uma grande cama de casal com edredom apodrecido pela umidade, enfeita o ninho muito chique. É made in Italy! Os travesseiros sem fronhas destacam etiquetas grandes e reluzentes, também muito chique, made in France. Do lado de fora do segundo piso tem as calhas enferrujadas que se soltaram dos parafusos, estão expostas a mercê da vontade do vento. Uma rajada mais forte teria feito tudo cair por cima do telhado da garagem coberta com telhas compridas. Características estranhas desse local. A cama, apesar de praticamente destruída, chama bem a atenção porque parece uma cama fora do padrão normal. É grande e com pés reforçados, e do lado direito de quem olha há um desnível bem visível. Os armários embutidos estão carcomidos por cupins, as cortinas por traças. Continuo dando mais uma volta pelo grande ambiente com pequenos tapetes empoeirados. Na frente um outro espaço totalmente enegrecido pelas cores das paredes, é um banheiro exclusivo com um vaso sanitário e uma pia com torneira diferenciada; tudo estilizado. As pupilas dos meus olhos se dilatam, aos poucos vão se acostumando com a falta de luz. Com a melhor observação noto que deveria ser mais cauteloso, andar calmamente na ponta dos pés para não escorregar em obstáculos encobertos pela escuridão. O espelho do banheiro pende num formato parecido com de um coração. Que ridículo! Quanta vaidade foi refletida ali. Um enorme chuveiro tombado se escora na parede manchada do box, equilibra-se por um fio que transpassa o cano amarelado pelo tempo. Fico imaginando: qual tipo de padrão os moradores haviam estabelecido para si mesmos, a fim de uma sobrevivência tranqüila nesse local? O que faziam para que todos não se matassem nessa casa? Qual seria o preço para estabelecer regras e montar o seu próprio mundo? De repente uma música aflora uma imagem que se fixou em minha mente num tempo passado. O som é de violinos e metais em tom emotivo. Toda tranqüilidade que nunca existiu nesse mundo tomou conta de mim. Florestas de pêlos pubianos, restos de cabelos tingidos e tocos de unhas pintadas formam enormes montes no meio do caminho. Foi essa a imagem que se fixara anteriormente na minha mente e permanece colada até agora. Nessa desordem que se instalou, todos iriam contornando malabaristicamente, os montes feitos de lixo orgânico. Nessa hora sempre haveria uma intensa agitação com um corre-corre de pretensões artísticas e protestos contra os problemas internos e externos da casa; tudo acontecendo de uma só vez dentro desse ambiente que um dia foi chamado de lar. Quantas vezes eu imaginei o filme dessas pessoas misteriosas andando de um lado para outro? Nem sei dizer... Só sei que foi um filme que a fada era a protagonista. Eu sabia que estar aqui de novo me deixaria consternado, mas andar pelo mundo sem destino só poderia dar nisso. Vejo que as coisas que não existem mais nesse lugar já não fazem o menor sentido para mim. Tudo continua jogado no ar impuro desse ambiente abandonado, com aparência de lugar largado devido a tantas discórdias inquietantes. Ainda me dou o direito de imaginar e perguntar. “Ó fada, que vida foi a sua?” Essa vida que levava para se divertir inventando histórias e maltratando pessoas, isso satisfez a sua fome de perversidade? Eu sei bem que para você, depois de todo esse meu tempo passado na fileira dos condenados, tudo está mais ou menos claro e ao mesmo tempo não está. Não ligue para isso, são apenas meus pensamentos loucos que estão fora de sincronismo, por isso continuo agindo assim. São pensamentos misteriosos que falam de você e me fazem escrever outra vez a minha certidão de óbito. Eu já sei o que diria nesse momento se estivesse aqui comigo, seria algo assim: “A sua teoria sobre mim pode ser muito lógica, aliás, bem verdadeira, mas isso não lhe dá o direito de invadir a minha casa, mesmo que décadas se passem da nossa última discórdia”! Imaginou que depois dessa ordem pudesse me fazer readquirir a consciência perdida. Mas isso nunca aconteceria. E se acontecesse me traria a convicção de que durante muito tempo senti a visão tão fechada que nem conseguia me defender. Mas agora que voltei e estou aqui de novo lhe afrontando e me escondendo, tenho um mundo só meu onde posso finalmente reagir contra seus feitiços. Às vezes olho para o seu retrato perdido dentro da mente e imagino que você não existe mais como fada e nem como monstro. Que tudo aquilo que vi de bom ou ruim ficou parado no tempo ainda em vida. Mas infelizmente há muitas coisas soltas que precisam ser buscadas em nome da glória e da paz interior. Juro que gostaria de ter boas noções de esperança nessa hora. Tanto que, que até preferiria ser Jack Skellinton com o fiel amigo Zero do nariz diferente e encantador, o Tim Burton um dia foi o meu ídolo predileto, isso em outra vida, é claro. Pena que a minha realidade não é mais assim, os meus heróis guardo na lembrança. Hoje o meu mundo é outro um lugar difícil de identificar. Apesar de saber que tenho ideias próprias, mesmo estando sujeito a toda essa limitação à claridade natural. Se ainda circulo por sua casa fedorenta, minha doce fada, é porque esse longo e triste corredor está diante de mim. Sei que pouco a pouco conseguirei firmar a vista nessa escuridão que você deixou quando partiu daqui. Um pouco adiante vejo alguns flashes de claridade nessa nova passagem pela casa que fede. Ouço novamente o som do violino e do patético instrumento de metal. Estão diante de mim cinco focos de luzes que observam a minha movimentação. Ahhh... Se a fada estivesse aqui com certeza veria, com enorme tristeza, toda essa desarrumação dos corredores por onde tanto andou, xingou e amaldiçoou a própria vida. Sem me conter por tanta curiosidade, vou abrindo porta por porta dos ambientes cheios de tons pretos. Não vejo nenhuma bagunça dentro desses lugares, porém, existe um canto especial que prima pela ordem e limpeza. Brilha no escuro. Santa ingenuidade a minha! A fada ainda mora aqui! Mas as pessoas dos outros quartos são completamente estranhas e desoladas. Não vejo um só rosto familiar. Ao se virarem, por sentirem minha presença sombria, mostram os seus rostos mutilados e a pele do corpo queimada. Medrosamente pretendem esconder os seus infortúnios por detrás das portas trancadas. Passam privação, mas não se mostram como são nesse outro mundo, o mundo que não é mais o meu. O mundo que foi magistralmente dominado pela fada. Saibam que ela é de dois mundos desde que nasceu. A neblina da manhã cai mansamente sobre as cruzes de ferro do meu quintal. Dou uma última olhada pela janela do quarto da frente da casa da fada, vejo se alguém anda lá fora. Sinto o clima e desço pelas escadas que levam para a liberdade. Agora me sinto tão só, e não ter com quem dividir essa angústia me deixa mais sozinho. Apesar de insistir em tentar eliminar essa lembrança, caio diante do pavor do homem morto, esse que ficará encerrado dentro de quatro partes de madeira envernizada para todo o sempre. Um Ser que, apesar de morto, ainda sobrevive, e continua jogado no meio dos feridos. Foi só até onde conseguiu chegar, juntamente com todos aqueles que fazem parte da multidão em burburinho que foram vitimas da fada nessa ou em outra vida. 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Luz Fraca Do Abajur

Decisão

O E-Mail-Carta Parte 8