Uma Breve Vida PARTE 2

       Hoje está um tanto frio aqui embaixo. Parou de chover e o céu está limpo. A noite não tem o brilho do luar. Há alguém me observando; sei que estou sendo controlado e perseguido todo o tempo. Há um séqüito de seguidores atrás de mim querendo tomar a única coisa que me restou. Mal sabem que não há muita coisa a ser descoberta nessa escuridão que se prolonga por um tempo infindável. Fico muito temeroso com o jeito como as coisas estão acontecendo sem controle. Isso me deixa bem maluco quando lembro de tantas cenas pavorosas. Agora está tudo tão diferente. De vez em quando um pensamento vem como se fosse um filme em câmera lenta. Eu me lembro bem daquela fada vestida com tecido negro, escondendo por debaixo do pano fino as suas armas mais poderosas, e com seus ombros nus mostrando a pele com brancura radiante; os seus contornos ainda persistem por longo tempo numa boa definição. Mesmo assim é melhor que todos tomem cautela com seus impulsos. O seu olhar é duvidoso, vai mantendo um semblante apagado quando está triste e indecisa. Ninguém sequer imaginou que tudo isso uma vez aconteceu nos meus sonhos. A imagem que fazia era de uma fada boa, alguém transmitindo sabedoria num momento de ternura. Mas, depois que o sonho virou pesadelo, rapidamente notei que essa fada se tornou um monstro nas atitudes. O tempo passou e quando ele passa é necessário parar para repensar tudo de outro jeito. Por isso esse silencio fantasmagórico persistirá um pouco mais por aqui, isso até que as perguntas sem respostas sejam esquecidas. (Saibam que novamente eu peço que continuem lendo toda essa descrição tosca, mesmo que já saibam que o que vem pela frente continuará sendo nada agradável para os de alma sensível. Porém, com certeza, uma coisa eu garanto a todos: somente a fada e eu sabemos onde reside a verdade. E num belo dia teremos que prestar contas um ao outro; encarando os fatos de frente e sem medo).  
          Ao seu lado descansa o animal de pelagem branca, ele espera novas ordens para se movimentar. A aparência da fada nem tem mais algo de diabólico como antes, tampouco, onipotente, fria e agressiva. Ela está serena. Mas tudo pode acontecer na hora que os olhos ganharem de novo aquele brilho do vermelho-sangue; tão comum quando é contrariada em suas vontades. Mas, antes disso, demonstrará ser uma fada de olhos tristes. Do jeito que as coisas andam nesse momento, com certeza, elabora novo plano em busca de outro desafio. Provavelmente se esconde todos os dias no mesmo lugar; ali onde toma um belo copo gigante de coca-cola entupido com gelo até a borda. Um hábito permanente só para refrescar o calor interno que percorre o corpo na hora que reconhece os meus pensamentos por telepatia. Então, quando a vejo novamente se acomodando ligeiramente em grandes almofadas aveludadas, estando pacientemente à espera de uma nova caça que satisfaça o seu apetite; eu sorrio. Eu sei que ela gostaria de saber onde estou e o que estou fazendo. A minha fada tem a deliberação de um estrategista militar em plena guerra. Analisa cada milímetro de cada movimento. Age como um grande guerreiro que luta para vencer com astúcia. Ela é do tipo que nunca pensa em se afastar dos seus caprichos e presunção. Como se não bastasse, nunca aceita ser recriminada nessa filosofia; isso seria um grande atentado a certa mania de grandeza que possui. Pois bem, imagino que uma grande confusão barulhenta se formou por detrás daquela janela. Durante um tempo ela quase nem sabia mais como era a cara do mundo aqui fora, esse mundo que eu vejo na escuridão. Um mundo feito de tal maneira que carrega o sofrimento, mesmo que o seu olhar continue sendo de adulação aos que a cerca. Mesmo assim continua cega diante da infelicidade desses que a protegem. Nos seus curtos diálogos ainda mostra o quanto vai contra o próprio desejo da natureza comum; aquele de tentar fazer o bem a alguém. Nessas conversas aparecem os seus planos e promessas que nunca serão cumpridas. Ainda assim continua buscando entretenimento; procura algo pitoresco em alguma alma pura para dominar. O seu interesse sempre foi o de projetar naqueles de mente fraca, um tipo de sentimento atrofiado e fácil de incutir culpas. A guerra psicológica e a sedução são suas armas prediletas. Isso é mesmo algo aviltante, não acham? Ela e aqueles com quem convive são iguais: são demônios! Sempre acreditam que devem ser únicos. Os donos exclusivos da realidade de cada individuo seduzido por tanto charme de uma pseudo-inteligência. O pior é que no começo qualquer um alimentaria certa simpatia pelos encantos de todos, pois parecem tão convincentes em seus trajes de festa. Mas no final ninguém espera ficar entregue por todo o sempre. “Não! Não! Não!”, mais um grito na escuridão. Outra vez o pensamento retorna para a porta daquele lugar. É o lar da fada. Ali as chamas nunca param de arder; está tomado por uma fumaça fedorenta que arrasta um calor escaldante e o cheiro horrível de fezes e urina. É desse lugar que ela cultiva, sem dar um minuto de trégua, uma luta telepática comigo. O mais curioso nisso tudo é que, apesar de ainda ser tomado pela influência dos seus pensamentos, não sinto qualquer dor. Ela, que um dia foi fada, sabe que não haverá vencedor e que pouco a pouco ficaremos cansados de tanto tentar conduzir cada uma à morte espiritual. Nada mais me resta além de imaginar que um dia a sua casa queimará por completo, ficará totalmente reduzida às cinzas. E junto com ela queimará os corpos daqueles que se consomem em dor e culpa. Não há ninguém nesse mundo que acredite que isso possa acontecer um dia, porque são só os meus pensamentos que me atormentam. Nem mesmo os piromaníacos tomados por uma febre sexual incontrolável julgariam isso possível. Tudo faz parte de um grande enigma a ser desvendado pela imaginação desses que se julgam mais sábios que os outros. Eu sei muito bem que com o passar do tempo ninguém mais se interessará por essa história triste. Com toda certeza ninguém lembrará nas conseqüências advindas desse duelo cruel de mentes em conversas telepáticas. Porque no fundo todos já sabiam de tudo o tempo todo . Sabiam que ia acontecer cedo ou tarde. Esses passeios noturnos estão mesmo bem inspiradores de uns tempos para cá. Deles me embelezo e alimento a alma, essa que alguns dizem que nem tenho mais. Faço tudo com enorme vontade até estar satisfeito. Olhando o horizonte consigo constatar uma série de coisas inimagináveis que poderia ter feito. Uma pena que tudo esteja só na imaginação, também porque, não tenho a mente mais brilhante desse mundo. Reconheço que depois da visão que tive na noite passada, aquela da fada que vira monstro, tenho a certeza que ela mudou de disfarce mais uma vez. Esses pensamentos me deixam louco...oco....oco....oco... uhhh... uh!
     Uma nova situação começa a tomar proporções assustadoras na mente, logo, vagueio com o silencio e retorno para a eterna morada. A constituição do meu organismo já não me permite longos passeios fora do ambiente protetor. Volto praticamente voando pelo mesmo caminho por onde vi tudo. Vou pensando na existência mal-educada daquele ser apavorante que tentou me levar consigo; era a fada no seu traje preto. Sinto o meu corpo desmoronando nos escombros da nova morada. Isso ainda não está fazendo qualquer sentido, não é mesmo? Não se importe com isso agora. Mesmo que faça dessa lembrança uma triste confusão nessa mente desorientada. De uma coisa eu sei com exatidão, nessa breve vida que me expus, fui possuído e amordaçado, tanto que nem consigo dispor de um contra-argumento para demonstrar o que passou por detrás dessa mente enlouquecida pela dor. E que ninguém ouse me contradizer. Só eu sei o que passei e por que vivi cada momento de angústia como se fossem os meus últimos segundos numa cadeira elétrica. Viver assim foi a minha maior condenação. Agora dou de costas no meu leito de repouso. Os meus amigos pequeninos de quatro patas circulam por cima da tampa. Começo a me focar nos barulhos que fazem lá fora. Estou outra vez de volta às lembranças do subterrâneo dessa vida miserável. Sigo pelo caminho que já conheço de cor, estou diante de uma catacumba impressionante onde os mortos ficam de pé; eretos e absolutos. Os seus olhos não existem mais, são órbitas vazias. Todos bem enfeitados com ramos de folhas ressecadas e com finas correntes ostentando cruzes prateadas sobre o peito. É uma catacumba imponente no meio de uma câmara onde nos cantos se amontoam ossos e tocos de velas apagadas. No chão há esqueletos com trapos amarrados e restos de páginas do que deveria ser um livro esquecido. Esse ambiente é bem reconhecível para mim. Está como aquele que em algum momento vivi um tempo. Agora a imagem do meu pensamento pula de cenário. Eu achei que tinha acordado, mas continuo dormindo de olhos abertos que choram. Estão repletos de lágrimas que se precipitaram durante o momento da visão anterior. Eu chorei tão suavemente que seria necessário decifrar se eu estava chorando por dentro, ou sorrindo como se fosse o relator de uma súplica amorosa. Recebo sinais que a fada está de novo por aqui, ela voltou com atenção redobrada. Um de seus emissários mais fiéis me mandou uma mensagem por telepatia. A voz desse emissário é feminina. Esse ser tem rabo, é um rabo grande e comprido que balança de um lado para outro, sobe e desce em ritmo de chibata. Tudo o que ela me diz será descrito nessas linhas mágicas, e a mensagem chegará até esse ser egoísta que foi acoitado e protegido por aqueles que pensam iguais; ou que cometem as mesmas atrocidades: esses serão os seus eternos guardiões. Pensar em tudo isso excita a minha mente. Agora vou tentar dormir em paz ouvindo o som dos meus amigos roedores.

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