PATTI SMITH

PATTI SMITH

Sabe um daqueles dias que você acorda e sente vontade de fazer algo que não entende bem o que é? Por exemplo uma daquelas vontades de comer alguma coisa diferente, algo que satisfaça sua necessidade de sabor e sustância?
Pois então, é assim que me sinto hoje. Uma dúvida sobre o que ouvir atentamente e escrever aqui minhas considerações.
Farei minhas as palavras desta personagem de hoje:
Here I go and I don't know why, I spin so ceaselessly, 'til I lose my sense of gravity...(trecho da música, Dancing barefoot)
Uma das mais controversas mulheres da história do rock, mais um gênio não reconhecido em sua história de vida, talvez daqui uns cinquenta ou cem anos ela receba o valor que merece.
Esta artista rompeu barreiras e re-definiu um estilo marcado nos anos setenta por ícones do rock já em decadencia e impregnado pela era DISCO MUSIC que imperava nas rádios e recintos públicos onde pessoas se encontravam para ouvir e dançar, sem o compromisso de compreensão da música em seu contexto intelectual ou criativo.
Sua forma debochada e ao mesmo tempo séria e contemplativa, com um olhar contido e distante, demonstrava sua personalidade forte e explosiva. Seu modo diferente de cantar e interpretar as canções motivou vários fãs pelo mundo todo a serem seus seguidores, sua postura nada meiga, um tanto agressiva na forma de vestir-se, não era feminina para os padrões da moda. Sua colocação das palavras e emoção interpretativa, demarcava sempre sua intenção contestadora e poética. Eu a defino como uma BOB DYLAN de saias, com uma agressividade na postura.
Patti Smith, uma mulher, uma artista, uma poetisa, uma figura repleta de revelações e contradições em sua vida. A moça não apenas cantava, ela recitava suas letras, um desabafo por todas suas insatisfações.
Ela fazia um discurso nas músicas, colocava sua emoção e voz embargada nas faixas lentas com um sentimento perfeito que emocionava o ouvinte, então vinha o som da guitarra fazendo o contraponto do seu lamento, a música BIRDLAND é um ótimo exemplo para este detalhe fantástico e criativo.
Patti Smith sempre agressiva, mas com uma suavidade sentimental, o amor e o ódio lado a lado, as incertezas de um amor, a certeza de um desprezo ou de uma injustiça, tudo na vida dela ou daqueles que ela observava com olhar critico e transformava em poesia musicada. Ela poderia ser definida como portadora de todos os sentimentos que temos no dia a dia em cada momento de exaltação, tristeza e paixão. Patti tornaria real a fantasia e reviraria as injustiças do mundo em suas letras. Preocupada com todas as formas de conciliação, com a fome, com a miséria, com os fracos, com as lésbicas, com os gays, com os menos afortunados, com a opressão, com a devassidão, com a discriminação racial, com sexo e com o rock and roll. E acima de tudo com seus próprios conflitos emocionais que perduram pelo longo de sua vida de sessenta e quatro anos.
Patti trazia livros para seus concertos, adorava livros desde sua infância pobre e miserável em Chicago, quando já aos dezesseis anos teve que ir trabalhar em uma fábrica para ajudar no orçamento da família e em seguida foi trabalhar em uma livraria, onde adquiriu o excelente hábito da leitura, o que lhe rendeu grande conhecimento sobre poesias. Os grandes escritores e as grandes escritas estavam ao seu acesso fácil. Patti sempre foi figura inquieta e inconformada com as situações de rotina, então resolve se mexer e segue o caminho da música e da poesia. Vai embora para Paris onde começa a fazer apresentações de rua. Agradece os trocados pelos recitais ao ar livre. Resolve caminhar mais e torna-se pintora, vira critica de rock para a famosa revista CREEM.
Influenciada pelos escritos de um livro de RIMBAUD, chamado ILUMINAÇÕES, Patti faz uma música na qual relata sua árdua experiência e toda a raiva que sentia ao trabalhar na fábrica em sua adolescência. Começava então a carreira de cantora, no lado B do single tinha a música Hey Joe, também com um trecho recitado.
O primeiro trabalho em forma de LP viria logo em seguida com o famoso disco HORSES, um marco na história do rock por ter sido considerado até então, o melhor trabalho de uma banda em seu disco de estréia. Neste disco vemos uma mistura de rock and roll com poesia recitada em vários trechos. E vale a pena citar aqui suas palavras de abertura do disco que dizem assim: “Jesus died for somebody´s sins...But not mine” “Jesus morreu pelos pecados de alguém...Mas não pelos meus”.
Em seguida o segundo disco chamado RADIO ETHIOPIA, um trabalho conciso, intimista, cheio de ênfases e efeitos sonoros estranhos, vozes entrepostas, frases entrecortadas, burburinhos e distorções. Em meio à turnê deste disco Patti escorregou do palco e caiu de uma grande altura quebrando várias vértebras do pescoço o que lhe rendeu um grande período de tratamento e afastamento das atividades musicais. Período este que ela pode reorganizar-se e reavaliar sua vida e prioridades.
Após sua recuperação Patti lançaria mais dois discos na década de setenta, EASTER e WAVE, em Easter encontramos a famosa BECAUSE THE NIGHT, escrita em parceria com Bruce Springsteen. Seria seu primeiro sucesso comercial.
Na década de oitenta Patti esteve praticamente isolada da música, dedicou seu tempo a família.
A fase seguinte da carreira e vida de Patti Smith mereceria outro capítulo, eu acredito que sua fase marcante na carreira como cantora foi esta dos anos setenta com os quatro álbuns muito legais, HORSES, RADIO ETHIOPIA, EASTER e WAVE, que marcaram a história do rock e a tornaram conhecida mundialmente por seu talento e arte explosiva.
Terminando o post ao som da música EASTER, me passa diante dos olhos, o semblante irado, chocante e inconformado de uma moça pobre do subúrbio de Chicago, Patti em suas interpretações, seu dedo em riste sua arte de comover pelas palavras, seu dom de chocar com atitudes revela um pouco de cada um de nós nos mistérios de sua mente fértil e criativa.

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