domingo, 25 de julho de 2010

NÃO VERÁS PAÍS NENHUM

      Vou comentar sobre um livro que marcou a minha vida. Justamente por sua realidade excêntrica e uma delicada apologia ao “faça as coisas certas e não sofrerá as conseqüências ruins de um futuro nebuloso”
Sei que este post foge um pouco do propósito do blog que são os comentários sobre música. No entanto, não poderia deixar passar sem a alusão do acaso, o grande achado e a surpresa que ele me causou.
No momento de uma faxina nos meandros de caixas escondidas e velhos baús empoeirados, deparei-me com o meu passado um tanto apagado na memória. São mais de 25 anos de uma marca no tempo que me veio à tona. Uma época em que eu administrava o tempo na fábrica, trabalhava como metalúrgico, e as horas de folga passava lendo, lendo e relendo. Devorava literalmente tudo o que podia. Com meus longos cabelos ondulados que cobriam parte do ombro e da testa, eu circulava com uma bolsa estilo hippie, usava também calça jeans rasgada e um tenis surrado. Não largava de jeito algum o famoso walkman da Sony, aqueles de fita k7, ninguém lembra mais o que é fita k7.  Alguém aí ainda lembra disso? Juntamente com tudo isso iam os meus livros do momento. Era época em que conseguia ler 2 ou 3 deles ao mesmo tempo, diga-se: temas totalmente diferentes. Naquela bolsa surrada não podia faltar o velho exemplar de KARL MARX, A ORIGEM DO CAPITAL, muito menos o livro de PAUL LAFARGUE, O DIREITO À PREGUIÇA. Meio jogado de canto, como se fosse um patinho feio, estava lá, NÃO VERÁS PAÍS NENHUM DE INÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO.
No início de tudo imaginei tratar-se de mais uma obra chula sobre ficção cientifica ou romance enfadonho, porém no decorrer do texto fui me encantando com as casualidades tão reais da narrativa. Durante alguns dias Marx e Lafargue ficaram esquecidos e eu então, sentado sempre a sombra da mesma árvore, me deliciava com aquela história inexplicável. O meu grande companheiro de todas as viagens passou a ser Souza, também sua esposa Adelaide. Tinha ainda o menino com furo na mão. Nossa! E a grande marquise na qual as pessoas se acotovelavam para esconder-se do sol? 
    Enquanto estava confortavelmente instalado dentro de um ônibus que ia para a zona sul, eu me distraia apegado à leitura, sempre passava do ponto que eu tinha que descer. Quando estava no metrô me empolgava e descia três ou quatro estações depois para não perder a seqüência da narrativa. Num belo dia de sol, eu novamente estava ali sentado na mesma sombra da velha árvore frondosa, uma que até hoje derruba suas folhas no parque do Ibirapuera. Era quando eu terminava as últimas páginas desta história lúcida, cheia de fantasia e antecipação dos momentos que vivemos hoje. Por pouco aquela ficção quase se tornou realidade nos meus pensamentos. Ainda sinto-me tão apegado naquele sentimento de inquietação. Foi um tipo de desconforto permanente que a leitura me causou. Então chegando nas últimas linhas terminava o livro maravilhoso. 
Com as pilhas novas o walkman de fita k7 rolava a música de Zé Geraldo, dando milho aos pombos, era bem a minha cara tudo aquilo acontecendo...

4 comentários:

  1. Nossa,
    Preciso reler este livro.
    Não vamos falar de idade, mas, ainda tenho mais de 400 fitas k7, inclusive essa do Zé.
    Adorei o blog. Gosto de coisas com bom conteúdo.
    Vamos nos seguindo, cantando a canção e pintando música.
    Grande abraço.

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  2. Caríssimo! Sou de uma época anterior a essa. Época em que o sonho de consumo era a TV transistorizada e o telefone era um luxo desnecessário. Quando comecei a trabalhar com informática os PCs eram do tamanho de uma sala, os discos onde eram gravados os dados eram do tamanho de uma roda de carro. O carro era o sedã Belcar e a camioneta Vemaguet, mas a paixão mesmo era o Puma. Havia o Gordini, o Opala, o Mustang...Hoje, existem vários, nem sei distinguir os alhos dos bugalhos. O telefone é uma necessidade, e os PCs são carregados no bolso. As amizades existiam, os vizinhos se cumprimentavam. O amor tinha um toque mágico, uma fome de bondade, de compaixão pelo outro, de proteção. O amor hoje, não tem mais porto onde ancorar, ficou pelas ruas. O amor também virou um objeto de consumo. E estamos virando coisas. E por isso essa saudade inexplicável de alguma coisa que parece que existiu antes da vida.

    Na época eu também lia os utópicos como Karl Marx e os distópicos George Orwell e o nosso Ignácio de Loyola que capta como ninguém o caos da cidade grande. Conheci Loyola através do seu conto ‘O homem que viu o lagarto comer seu filho’, e nessa época vivíamos os anos de chumbo e o conto era uma associação direta do lagarto ao regime militar e a criança éramos nós os dominados. ‘Não Verás País Nenhum’ é um presságio de um futuro nefasto, da Amazônia resta apenas um imenso deserto; a temperatura global aumenta; escassa, a água dos rios é armazenada e exposta em museu. Loyola foi um visionário. Engraçado! No Museu do Ipiranga já existe isso, águas do Rio Paraná, Rio Paranapanema, Rio Uruguai e o Rio Amazonas lá estão em grandes globos que adornam as escadarias.

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  3. no outro comentário, acho que esqueci de desejar uma boa semana...rs...

    beijão

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  4. Estou surpresa Renato gosta de ler Karl Marx,nossa é admirável ele foi um grande marco na história um idealista que ajudou muito a classe operária lutando pelos direitos,bom se eu estiver falando besteira me corrija certo.Vejo que fez faculdade com a vida e experiências marcantes,é por isso que escreve tão bem,parabéns te admiro por isso!!bjs Andréa Cardoso.

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