NÃO VERÁS PAÍS NENHUM

      Vou comentar sobre um livro que marcou a minha vida. Justamente por sua realidade excêntrica e uma delicada apologia ao “faça as coisas certas e não sofrerá as conseqüências ruins de um futuro nebuloso”
Sei que este post foge um pouco do propósito do blog que são os comentários sobre música. No entanto, não poderia deixar passar sem a alusão do acaso, o grande achado e a surpresa que ele me causou.
No momento de uma faxina nos meandros de caixas escondidas e velhos baús empoeirados, deparei-me com o meu passado um tanto apagado na memória. São mais de 25 anos de uma marca no tempo que me veio à tona. Uma época em que eu administrava o tempo na fábrica, trabalhava como metalúrgico, e as horas de folga passava lendo, lendo e relendo. Devorava literalmente tudo o que podia. Com meus longos cabelos ondulados que cobriam parte do ombro e da testa, eu circulava com uma bolsa estilo hippie, usava também calça jeans rasgada e um tenis surrado. Não largava de jeito algum o famoso walkman da Sony, aqueles de fita k7, ninguém lembra mais o que é fita k7.  Alguém aí ainda lembra disso? Juntamente com tudo isso iam os meus livros do momento. Era época em que conseguia ler 2 ou 3 deles ao mesmo tempo, diga-se: temas totalmente diferentes. Naquela bolsa surrada não podia faltar o velho exemplar de KARL MARX, A ORIGEM DO CAPITAL, muito menos o livro de PAUL LAFARGUE, O DIREITO À PREGUIÇA. Meio jogado de canto, como se fosse um patinho feio, estava lá, NÃO VERÁS PAÍS NENHUM DE INÁCIO DE LOYOLA BRANDÃO.
No início de tudo imaginei tratar-se de mais uma obra chula sobre ficção cientifica ou romance enfadonho, porém no decorrer do texto fui me encantando com as casualidades tão reais da narrativa. Durante alguns dias Marx e Lafargue ficaram esquecidos e eu então, sentado sempre a sombra da mesma árvore, me deliciava com aquela história inexplicável. O meu grande companheiro de todas as viagens passou a ser Souza, também sua esposa Adelaide. Tinha ainda o menino com furo na mão. Nossa! E a grande marquise na qual as pessoas se acotovelavam para esconder-se do sol? 
    Enquanto estava confortavelmente instalado dentro de um ônibus que ia para a zona sul, eu me distraia apegado à leitura, sempre passava do ponto que eu tinha que descer. Quando estava no metrô me empolgava e descia três ou quatro estações depois para não perder a seqüência da narrativa. Num belo dia de sol, eu novamente estava ali sentado na mesma sombra da velha árvore frondosa, uma que até hoje derruba suas folhas no parque do Ibirapuera. Era quando eu terminava as últimas páginas desta história lúcida, cheia de fantasia e antecipação dos momentos que vivemos hoje. Por pouco aquela ficção quase se tornou realidade nos meus pensamentos. Ainda sinto-me tão apegado naquele sentimento de inquietação. Foi um tipo de desconforto permanente que a leitura me causou. Então chegando nas últimas linhas terminava o livro maravilhoso. 
Com as pilhas novas o walkman de fita k7 rolava a música de Zé Geraldo, dando milho aos pombos, era bem a minha cara tudo aquilo acontecendo...

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