terça-feira, 27 de julho de 2010

MOTORHEAD - ACE OF SPADES

       Corria o ano de 1982, em meio à euforia da copa do mundo de futebol, estava eu empenhado no papel de assíduo leitor inveterado dos livros “proibidos” daquela época, final dos anos de censura e repressão política, minha visão da sociedade era turva e rebuscada. Ainda me influenciava pela obra de Marx e agora as teorias de Errico Malatesta e Bakunin me confundiam o pensamento com suas idéias revolucionárias. Eu observava com indignação as “orquestrações” políticas e a condução das massas para um evento que desembocaria no dia 21 de abril de 1984, tornando a nação enfraquecida e indulgente pela perda da primeira esperança de renovação politíca depois de vinte longos anos sombrios.
Bom, vamos aos fatos... No exato dia 5 de julho de 1982 eu ouvi a banda Motorhead.
Depois de algumas horas passadas do término do evento mais triste da minha vida até então, me larguei no sofá da sala, com a tv desligada, as portas e janelas abertas, escancaradas, pouco se ouvia do barulho da rua, parecia que todos estavam dentro de suas casas lamentando o acontecido. Brasil perdera o jogo da copa realizada na Espanha. A seleção de craques foi eliminada pela Itália de Paulo Rossi.
Resolvi ligar o som, busquei no canto da estante onde eu colocava as pilhas de LP devidamente em pé, bem retinhos e na mesma linha em ordem alfabética, o tal Motorhead.
A capa pitoresca me chamou a atenção. Pensei comigo: “O que estes três caras vestidos de mexicanos bandoleiros tocam?” Seria uma banda semelhante ao Z Z Top? Ledo engano!
Peguei delicadamente o braço do toca discos gradiente equipado com cápsula shure e apontei cuidadosamente para o inicio da primeira faixa, virei o botão do receiver Marantz até o meio e deixei o som aparecer no movimento dos alto-falantes das caixas Lando.
Vieram os primeiros acordes, recebi um torpedo na testa, uma paulada, um efeito sonoro devastador e agressivo, diferente de todos que eu já ouvira antes.
“Ace Of Spades” fiquei ali parado, surpreendido e boquiaberto com a revelação. A velocidade da música, o vocal rouco e agressivo de Lemmy me acachapou direto no chão frio naquela tarde de inverno. O que era aquilo? Olhava a capa do disco, buscando segredos ocultos, algo que decifrasse minha empolgação. O disco seguia em seu ritmo continuo, e quando cheguei em “Jailbait” meu pensamento mudou. Disse a mim mesmo:”Quero ser como estes caras!”. Deste dia em diante o preto passou a ser minha cor predileta, Minhas calças de blues jeans surradas foram para o baú, agora eu usaria jeans pretos e apertados, a boca da calça mal passava pelos meus pés, era uma tortura colocar aquilo. Vieram os cintos de arrebite e as pulseiras de couro também completavam o adorno. Comprei no brechó uma jaqueta de couro muito usada, mas com o estilo ideal, enchi a coitada de arrebites, meu calçado agora era botas, cor preta, é claro, meio coturno. Minha atitude mudou, não era mais o “bicho-grilo” que acreditava no socialismo e no sonho de uma sociedade justa. Não usava mais a bolsa jeans e nem carregava livros, virei alienado, queria ser como o Lemmy, ter sua atitude, sua agressividade e seguir sua verdade. Minha vida transformada. Agora eu ouvia “The Hammer” no volume mais alto possível, colocava o vinil debaixo do braço e saia para visitar os amigos, Mostrava, contava maravilhas, queria que ouvissem naquela hora, no mesmo instante, pregava meu culto ao metal, e após cada audição novos seguidores convertidos. Em menos de uma semana todos os meus amigos estavam correndo atrás do trabalho do Motorhead.
O tempo passou, não sei qual o proveito que tirei daquilo, mas até hoje ainda ouço com carinho especial o disco completo “Ace Of Spades”. E quando isto acontece retomo todas as lembranças de como foi minha primeira vez diante de Lemmy e seus bandoleiros.

3 comentários:

  1. Muito legal seu blog, se tiver afim eu topo parceria, com meus dois blogs. www.atituderocknroll.blogspot.com e www.ozzyosblog.blogspot.com, se beleza deixa um recado lá.
    Abraço

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  2. E o Motörhead ainda reina soberano. E ‘Ace of Spades’ ainda é o álbum mais selvagem e brutal que ouvi. E Lemmy ainda está na estrada. E o rock ainda domina o mundo, graças aos bons deuses.

    Adooooooooro ouvir a voz rouca de Lemmy em ‘I don't believe a word’. Ela não é do ‘Ace of Spades’, é do ‘Overnight Sensation’.

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