Janis joplin

JANIS JOPLIN

Numa tediosa noite de sexta-feira resolvi sair para assistir um filme na famosa sessão maldita do cine metro na Avenida São João, era o ano de 1980. Eu lera o jornal naquele dia e na parte que falava de cultura e cinema havia um anúncio em destaque, informava sobre o filme de Janis Joplin que estaria em cartaz naquela noite em apresentação única.
Tempo ruim garoa e frio. Uma enorme fila dobrava a esquina e todos ali se encostavam às paredes laterais tentando esconder-se da chuvinha chata e intermitente que incomodava aos impacientes jovens alucinados que a todo instante olhavam no relógio e bradavam gritos de ordem: Abre! Abre! Abre!
Finalmente, às 23h30min as portas se abriram e íamos um a um passando pela bilheteria, pagando o ingresso e adentrando pelo corredor que levava à sala. Muitos iam se acomodando no chão, no carpete vermelho aveludado que cobria o piso, outros buscavam os melhores assentos no fundo da sala. Busquei um lugar intermediário e ali esperei as luzes se apagarem e finalmente Janis aparecer.
O momento foi solene, a luzes foram enfraquecendo, brilho inconstante, e tudo ficou escuro.
Eu via com muita nitidez, vários e vários pontinhos de chamas pelos cantos do cinema, em cada fileira, vários brilhos subiam e desciam em todos os tamanhos e cores, em poucos segundos uma nuvem de fumaça começou a tomar forma e vários círculos com formas abstratas dentro daquele enorme ambiente que cheirava a perfume patchoulli. No reflexo da luz da projeção a fumaça tornava-se mais branca e ia sumindo conforme se dirigia para um canto mais escuro. Havia ruídos estranhos, pequenas tosses e pigarros contínuos. Parei de prestar atenção no filme que eu tanto queria assistir, para observar o movimento da platéia inquieta. Alguns deitavam no chão, casais acomodavam-se no canto da parede e ficavam em pé abraçados de frente para a tela gigantesca.
Depois da euforia inicial o público aquietou-se, voltei minha atenção para meu objetivo e delirei ao som de TRY (Just a little be harder). O cheiro da erva não mais me incomodava, agora meu êxtase era Janis e seu jogo de cintura, sua dança e canto emocionado. Quase fui às lágrimas ao som de SUMMERTIME, que logo em sua introdução provocou um uivo estridente de todos os presentes. Como foi divino ver e ouvir Janis, era uma sensação diferente naquele tempo. Não existia internet e nem MTV, o Rock era marginalizado, ainda respirávamos a era DISCO, e eu ali assistindo uma cantora branca com todos os potencias de alma e interpretação de todas as cantoras negras que faziam do blues o seu lamento. Foi mágico! Ao som de Me and Bob Mcgee eu já sentia saudades. Ao final da sessão todos saíram ordeiramente quase numa fila indiana continua, comentando os detalhes de cada música e interpretação magistral.
Eu me encantei com todo aquele visual, com aquele talento arrebatador e carisma da minha musa. Parei na esquina mais famosa do Brasil, Ipiranga com São João, olhei para os lados atravessei a rua, caminhei até o largo do Paissandu e ali fiquei sentado encostado no ponto do ônibus esperando o primeiro da madrugada que chegaria às 5 da manhã e me levaria para casa onde finalmente eu deitaria em minha cama e sonharia com os momentos inesquecíveis de uma noite com Janis Joplin.

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